Poderia parecer surpresa para os desavisados, mas quem conhece a histórica relação entre os grandes empresários e a RBS não se assustou com o editorial publicado pela Zero Hora nesta terça-feira, 27 de maio. Às vésperas da votação sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, o jornal mais uma vez escolheu defender os interesses de uma minoria que concentra riqueza às custas do trabalho da maioria.
Segundo o editorial, os “pobres empresários” teriam que arcar com os custos da contratação de mais trabalhadores. O texto ainda afirma que a votação não deveria ocorrer às vésperas de uma eleição. Nesse ponto, concordamos: essa discussão já deveria ter sido feita há muito tempo. A luta pela redução da jornada acompanha a história do movimento sindical há décadas. Não por acaso, essa foi uma das bandeiras centrais das mobilizações que deram origem ao 1º de Maio, Dia Internacional da Classe Trabalhadora.
Em seguida, o jornal afirma que não existem evidências de que a redução da jornada seja viável ou benéfica. A Zero Hora talvez devesse dedicar menos espaço ao alarmismo patronal e mais atenção aos estudos produzidos sobre o tema. Pesquisadores da Unicamp organizaram o Dossiê: Fim da Escala 6×1 e Redução da Jornada de Trabalho, reunindo mais de 30 artigos e pesquisas que analisam os impactos econômicos e sociais da medida.
No estudo “Viabilidade Econômica para Redução da Jornada de Trabalho no Brasil”, um dado desmonta diretamente a narrativa apresentada pelo editorial. Entre 2012 e 2024, a produtividade do trabalho no Brasil cresceu 12%, mesmo diante de duas grandes crises econômicas que afetaram fortemente o emprego e a produção. Os trabalhadores produziram mais, enquanto seguem tendo menos tempo para viver.
Em outro trecho, o jornal afirma, de forma irresponsável, que a redução da jornada poderia ampliar a informalidade. Curioso perceber essa súbita preocupação com os trabalhadores justamente por parte de um grupo de mídia que apoiou a reforma trabalhista, medida que precarizou direitos, enfraqueceu sindicatos e ampliou relações de trabalho mais frágeis e instáveis. Onde estava essa preocupação quando empresas públicas foram privatizadas e milhares de empregos de qualidade deram lugar à terceirização e à precarização?
O discurso da Zero Hora revela menos preocupação com a sociedade e mais alinhamento com os interesses patronais.
Quase ao final do editorial, o jornal reconhece que é legítimo o direito dos trabalhadores ao convívio familiar, ao descanso e à qualificação profissional. Porém, imediatamente condiciona esses direitos à necessidade de “compensações” aos empregadores. Em outras palavras, até o direito de viver fora do trabalho deveria depender da preservação dos lucros dos patrões.
O movimento “Vida Além do Trabalho” trouxe ao centro do debate uma questão fundamental: não existe trabalho sem trabalhador. E trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas adoecem física e mentalmente. A escala 6×1 não rouba apenas tempo, ela rouba saúde, convivência, oportunidades e dignidade.
Se o lucro patronal é tão indispensável, talvez os próprios empresários possam experimentar trabalhar seis dias seguidos, sem descanso, abrindo mão do tempo com suas famílias, das viagens, do lazer e da possibilidade de escolher como viver. Porque, na prática, é isso que se exige diariamente da classe trabalhadora.
Enquanto patrões convivem com seus filhos, viajam ao exterior e têm liberdade para decidir sobre o próprio tempo, milhões de trabalhadores seguem presos a uma rotina que mal permite descansar. Muitas mulheres trabalhadoras continuam dedicando suas vidas a cuidar dos filhos das famílias ricas enquanto seus próprios filhos crescem privados da presença materna. Esse cenário não pode ser naturalizado.
O Brasil ainda carrega marcas profundas da escravidão e da desigualdade social. Não haverá um país mais justo enquanto qualidade de vida for privilégio de poucos.
Reduzir a jornada de trabalho não significa apenas diminuir horas. Significa garantir o direito de viver. Ter tempo para descansar, estudar, namorar, criar os filhos, visitar a família, ler um livro, assistir a uma série, frequentar sua igreja ou simplesmente não fazer nada. E isso deveria ser um direito básico, não um privilégio.
Os liberais gostam de afirmar que o Brasil é uma democracia baseada na liberdade individual. Pois então chegou a hora de permitir que os trabalhadores tenham liberdade sobre a própria vida e sobre o próprio tempo.
A luta pelo fim da escala 6×1 é uma luta por dignidade e os trabalhadores não aceitarão que essa pauta histórica seja esvaziada para atender, mais uma vez, aos interesses de quem sempre lucrou com a exploração do trabalho.
Luiza Alves – STIMEPA