Mulheres da CUT completam 40 anos de organização, conquistas e resistência

Em 1986, trabalhadoras de diferentes categorias deram um passo que mudaria a história da CUT. Reunidas no 2º Congresso Nacional da CUT, o CONCUT, elas conquistaram a criação da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora

Quarenta anos depois, aquele momento permanece como referência para a organização das mulheres dentro da Central. Foi a partir da comissão que reivindicações específicas das trabalhadoras passaram a ocupar, de forma organizada, os congressos, as plenárias e as instâncias de decisão da CUT.

A história, no entanto, começou antes. 

Mulheres do campo e da cidade participaram da fundação da CUT, em 1983. Eram trabalhadoras rurais, servidoras públicas, operárias, professoras e integrantes de diferentes categorias do setor privado. Também estavam presentes mulheres das águas e das florestas.

Elas ajudaram a construir um sindicalismo baseado na autonomia, na liberdade de organização e na defesa dos direitos da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, enfrentavam uma desigualdade que atravessava o mercado de trabalho, a vida familiar, a sociedade e o próprio movimento sindical.

A criação da comissão, em 1986, não marcou o início da participação das mulheres na CUT. Representou a formalização de uma organização nacional voltada às suas reivindicações.

É por isso que, em 2026, são celebrados 40 anos.

Organização para enfrentar as desigualdades

A Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora surgiu da necessidade de enfrentar problemas vividos diariamente pelas mulheres.

Realidade que ainda perdura nos dias de hoje, elas recebiam salários menores, tinham menos oportunidades profissionais e acumulavam o emprego com o trabalho doméstico e o cuidado com crianças, pessoas idosas e familiares. Também encontravam dificuldades para participar dos sindicatos e chegar aos espaços de direção.

Esses problemas não estavam separados.

A ausência de creches, por exemplo, dificultava a entrada e a permanência das mulheres no mercado de trabalho. A responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado limitava a participação em assembleias, reuniões e atividades sindicais. A baixa presença nas direções, por sua vez, fazia com que muitas dessas reivindicações não fossem incorporadas às negociações coletivas.

A comissão criou um espaço de articulação nacional. Sua função era organizar as demandas das trabalhadoras e fazer com que elas integrassem a plataforma política da CUT.

A criação foi aprovada em 1986. A implementação ocorreu em março de 1987. A partir daí, a organização começou a se ampliar nos estados e nas diferentes categorias profissionais.

O objetivo não era formar uma estrutura isolada. A proposta era fazer com que a igualdade entre mulheres e homens passasse a fazer parte da concepção e da prática sindical.

Creche foi uma das primeiras bandeiras

Uma das primeiras campanhas nacionais organizadas pelas mulheres da CUT foi “Creche para todos”.

A reivindicação mostrava que não seria possível falar em igualdade no trabalho sem discutir quem assumia a responsabilidade pelo cuidado das crianças.

Em 1988, durante o 1º Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, a CUT aprovou o dia 12 de outubro como Dia Nacional de Luta por Creche. O encontro também definiu o enfrentamento a todas as formas de discriminação e o fortalecimento da comissão nacional e das comissões estaduais.

A luta por creches tinha relação direta com a autonomia das trabalhadoras. Sem equipamentos públicos e de qualidade, muitas mulheres eram obrigadas a deixar o emprego, aceitar trabalhos precários ou depender de redes familiares para cuidar dos filhos.

A campanha ajudou a levar para o sindicalismo uma questão que, durante muito tempo, foi tratada como responsabilidade privada das mulheres.

Ao colocar o cuidado na pauta, as trabalhadoras questionaram essa divisão. Defenderam que a responsabilidade deveria ser compartilhada pelas famílias, pelo Estado e pela sociedade.

Décadas depois, o tema continua presente nas reivindicações por creches em período integral, serviços públicos de cuidado e divisão equilibrada do trabalho doméstico.

Da comissão à Secretaria Nacional

A organização construída em 1986 cresceu junto com as mobilizações das mulheres.

Foram realizados encontros nacionais, plenárias e campanhas. A estrutura também se espalhou pelos estados e pelos ramos de atividade. Aos poucos, as trabalhadoras passaram a disputar não apenas a inclusão de suas pautas, mas também o direito de participar das decisões da Central.

Em 1991, o 4º CONCUT reconheceu a desigualdade de oportunidades na participação política das mulheres. O congresso abriu a discussão sobre ações afirmativas e sobre a adoção de cotas nos cargos de direção.

Em 1993, a 6ª Plenária Nacional aprovou a proposta de uma cota mínima de 30% e máxima de 70% para cada sexo. Naquele momento, a medida foi adotada como recomendação. Em 1994, o 5º CONCUT elegeu a primeira direção constituída de acordo com essa política.

A experiência mostrou que a presença das mulheres não aumentaria apenas com declarações de apoio. Era necessário criar regras capazes de enfrentar uma desigualdade já instalada.

Em 2003, após 17 anos de atuação da comissão, o 8º CONCUT aprovou a criação da Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora e das secretarias estaduais.

A mudança ampliou o peso institucional da política de gênero. Também fortaleceu a capacidade de elaboração, organização e intervenção das mulheres nos debates da CUT.

A secretaria passou a trabalhar para que temas como igualdade salarial, creches, trabalho doméstico, proteção à maternidade, saúde, Previdência e combate à violência fossem tratados como questões de toda a classe trabalhadora.

Uma transformação dentro e fora da CUT

A organização das mulheres produziu mudanças na estrutura da Central.

A política de cotas tornou-se obrigatória e passou a integrar o estatuto da CUT em 2008. Em 2012, o 11º CONCUT aprovou a paridade de gênero. A decisão estabeleceu uma participação de 50% de mulheres e 50% de homens nas direções executivas nacional e estaduais.

A paridade começou a ser aplicada em 2015.

A conquista alterou a composição das direções, mas também mostrou que a igualdade não se resume ao número de vagas. Para exercer plenamente seus mandatos, as dirigentes precisam de condições materiais, liberação para a atividade sindical, infraestrutura e participação efetiva nas negociações e decisões políticas.

Ao longo dessas quatro décadas, a atuação das mulheres também ultrapassou a estrutura interna da CUT.

As trabalhadoras participaram das lutas por igualdade salarial, direitos das empregadas domésticas, proteção social, licença-maternidade, creches e valorização do trabalho de cuidado. Combateram o assédio, a violência doméstica, o feminicídio e a violência política.

Também defenderam a democracia, os direitos reprodutivos e políticas específicas para mulheres negras, rurais, periféricas e de diferentes setores profissionais.

Muitas dessas pautas encontraram resistência. Algumas levaram anos até serem incorporadas às resoluções sindicais. Outras continuam em disputa.

A trajetória iniciada em 1986 mostra que as conquistas não aconteceram de forma automática. Elas foram resultado da auto-organização, da presença nos espaços de decisão e da pressão permanente das trabalhadoras.

“Celebrar os 40 anos significa recuperar essa história. Significa reconhecer que a CUT foi transformada pela participação das mulheres e hoje transforma a vida das mulheres pela sua luta”, diz Amanda Corcino, secretaria nacional da Mulher Trabalhadora da CUT.

Nos próximos capítulos desta série, serão apresentados os caminhos percorridos nos congressos da Central, a construção das cotas e da paridade e as lutas que ajudaram a transformar reivindicações das trabalhadoras em direitos e políticas públicas.Série especial resgata a história de quatro décadas da organização nacional das mulheres na CUT, luta que ampliou a participação feminina no sindicalismo e levou reivindicações históricas para o debate público

Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

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