Executiva da CUT: Fortalecimento do mercado interno, com distribuição de renda, é essencial

Artur, Quintino e Clemente (Dieese)A amplitude, profundidade e durabilidade da crise internacional do capitalismo, suas conseqüências práticas para a economia brasileira, continental e mundial, seus reflexos no salário, emprego e direitos, bem como as diferentes alternativas propostas pelos movimentos sociais e governos progressistas da região para o fortalecimento do mercado interno, com distribuição de renda e valorização do trabalho. Estes foram os tópicos principais do debate sobre conjuntura na reunião da executiva nacional da CUT, realizada nesta quarta-feira (6), no Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Participaram da mesa de coordenação dos trabalhos, o presidente nacional e o secretário geral da CUT, Artur Henrique e Quintino Severo, e o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, responsável pela análise de conjuntura e a apresentação de subsídios ao conjunto da direção.

“A tônica da recente reunião do G-20 foi a austeridade fiscal, com propostas de redução de 50% do déficit público até 2013, não havendo nenhum debate sobre a regulação do sistema financeiro, motor da atual crise”, denunciou o presidente nacional da CUT, Artur Henrique, para quem é preciso estarmos alertas em relação à retomada da agenda neoliberal pelos países centrais.

“Temos um desafio real neste momento de disputa entre dois projetos distintos, onde cresce a importância estratégica da CUT para o debate sobre qual modelo de desenvolvimento queremos, sobre que país vamos construir”, declarou Artur, frisando que, obviamente, o candidato de Fernando Henrique e das privatizações, pedágios e pauladas nos movimentos sociais não nos reserva nada de novo.

Na avaliação de Artur, o instrumento fundamental dos cutistas para aglutinar os sete milhões de trabalhadores associados à Central e mobilizar o conjunto da classe por melhores condições de vida e trabalho é a Plataforma da Classe Trabalhadora, que deve servir de referência nas portas de fábrica, nas passeatas e atividades de rua para combater o retrocesso neoliberal encarnado pela candidatura Serra. “Nós vamos colocar a CUT nas ruas para continuar garantindo avanços como os obtidos com a política de valorização do salário mínimo, fruto da nossa pressão e da sensibilidade do governo Lula, que apostou no diálogo e na interlocução”, acrescentou o líder cutista.

Clemente Ganz Lúcio lembrou que “os brasileiros vivem hoje uma situação inédita diante da maior crise que o capitalismo passa depois da década de 30. Na nossa economia diferenciada, a crise não é visível para nós. E quando foi, passou rapidamente, diferentemente do período anterior”. Naqueles momentos de triste lembrança, pontuou, em que a Argentina, o México ou a Rússia foram atingidos, o governo caía de joelhos e ficava torcendo para o FMI vir ajudar.

Para o diretor técnico do Dieese, é muito importante fazer uma reflexão sobre os caminhos e descaminhos adotados pelos distintos governos, a fim de que a abordagem neoliberal, responsável pela crise, não tire proveito de certas confusões e acabe sendo fortalecida, com a vitória da direita da direita.

A questão colocada, alertou, é que há um descompasso entre a acumulação financeira, resultado da especulação, de cerca de 600 trilhões de dólares, e o mundo real, materializado no estoque de capital de 60 trilhões de dólares. “A pergunta é: quem está com esses 540 trilhões restantes? Enquanto este imbróglio não for resolvido, o problema continuará sem solução”, destacou, frisando que os banqueiros querem que os Estados nacionais paguem a conta e injetem recursos públicos para que seja retomada a confiança no sistema.

“Depois dos EUA, a crise começou na Europa pela Grécia, onde a dívida pública é monstruosa, cerca de três vez o PIB do país, e que está nas mãos dos bancos que não são gregos”, lembrou Clemente, esclarecendo que vem daí o “terror da Europa”, diante dos ricos de contaminação das demais economias.

Como a existência de uma moeda comum como o euro pressupõe um câmbio fixo entre os países europeus, estes países não podem apelar, unilateralmente, para a valorização ou desvalorização cambial, perdendo portanto este instrumento de política econômica.

Assim, a Alemanha é quem manda na União Europeia e há dez anos que atua incessantemente num processo de aumento da competitividade, por meio de investimento tecnológico e… contenção salarial. “Reduziram o custo do trabalho em 15% e a Alemanha virou exportadora para toda a União Europeia”. Para ter a competitividade alemã e não verem aumentar exponencialmente sua dívida pública, os estados europeus começam a adotar o mesmo receituário, diminuindo salários e benefícios. “Há uma fragilidade atroz, com os estados muito endividados e com uma evolução da sua dívida pública. Enquanto o nosso déficit público é de cerca de 2,5% do PIB, eles estão com 12%, 13%”, lembrou Clemente.

Este “ajuste da competitividade” ou “ajuste fiscal”, disse o diretor do Dieese, fez a Alemanha anunciar o corte de 80 bilhões de euros e 55 mil empregos públicos. “Na Grécia é ainda pior, é alucinação”, explicou Clemente, denunciando que o receituário neoliberal implica em completa desestruturação do pouco investimento existente, com aumento de impostos e diminuição de gastos públicos, cortes drásticos nas aposentadorias, no seguro desemprego, na qualificação profissional e na saúde pública.

A existência de um amplo mercado interno em expansão, avaliou Clemente, é um vetor de crescimento forte, ou seja “a desigualdade da nossa sociedade vira uma vantagem, pois há milhões de brasileiros que necessitam de cidadania econômica. O mercado interno é o grande indutor do crescimento, daí a necessidade de respondermos corretamente à equação investimento social versus investimento produtivo”.

O mais importante, analisou o técnico do Dieese, é que haja uma ampliação permanente da taxa de investimento público em relação ao PIB, que hoje é de 1,5%, em infraestrutura, estradas, energia. Na contramão, alertou, virão os apóstolos do neoliberalismo e seus meios de comunicação, citando nominalmente a Revista Veja, que tentarão pautar a agenda das reformas, buscando cortes na Previdência, impor limites na valorização dos salários, a suspensão das contratações, a exemplo do que vem tentando ser feito na Europa.

Clemente lembrou que o Brasil cresceu em 2009 justamente por ter enfrentado tais dogmas, impostos como receituário, e apostado no crescimento dos salários, no aumento do consumo popular, no fortalecimento do nosso mercado interno. “A nova presidenta assume em janeiro e temos de nos preparar para fazer o enfrentamento com estas concepções que vão querer pressionar pelo retrocesso. Se não nos preparamos, podemos engolir gato por lebre”, enfatizou.

Artur Henrique lembrou que é justamente para fazer com que o novo governo aprofunde as mudanças em curso, que a CUT vai jogar peso na popularização da sua plataforma que aposta na ampliação do papel redistributivo do Estado, na consolidação do sistema de seguridade social, no avanço da reforma agrária e da economia solidária, na redução das desigualdades, na garantia da soberania nacional e da integração regional. “Contra o retrocesso estão explodindo greves gerais por toda a Europa, com os trabalhadores afirmando que não aceitam este receituário, que só aprofundará a crise. Da nossa parte, junto com as manifestações de solidariedade, vamos às ruas para fortalecer a nossa concepção de um modelo de desenvolvimento sustentável, com igualdade e distribuição de renda, num estado democrático, com caráter público e participação da sociedade”.

Compartilhar

Veja também

Marcha Mundial das Mulheres completa uma semana de caminhada rumo a São Paulo

Dieese prevê que 2010 será ano de maior aumento real do salário de várias categorias

Sindicato entrega doações da Campanha do Agasalho dos Metalúrgicos para comunidade em Gravataí

As mais de duas mil famílias do bairro, que fica em uma área isolada da cidade, sofrem com a falta de infraestrutura e cuidado por parte do poder público.