O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre, Marcelo Nascimento, esteve na última semana na Província de Misiones, na Argentina, onde conversou com agricultores, prefeitos, vereadores e ex-deputados estaduais. A visita teve como objetivo compreender de perto os efeitos da crise econômica argentina sobre o setor produtivo e os trabalhadores.
Segundo Marcelo, o cenário encontrado é preocupante. A Argentina enfrenta, há anos, inflação elevada, desvalorização da moeda, aumento do custo de vida e forte instabilidade política. Esse conjunto de fatores tem reduzido drasticamente o poder de compra da população, aumentado o desemprego e ampliado a desigualdade social.

Crise no campo e abandono da produção
Em Misiones, produtores rurais relataram grandes dificuldades para manter suas atividades. A queda do consumo interno, os altos custos de insumos, combustíveis e transporte e a falta de acesso a crédito público têm colocado pequenos e médios agricultores em situação crítica.
“Muitos produtores não conseguem financiamento para investir ou sequer manter a produção. Sem apoio do governo federal, acabam acumulando dívidas ou abandonando suas terras”, relatou Marcelo.
A crise no campo afeta diretamente o conjunto da economia argentina, comprometendo o abastecimento, reduzindo empregos e enfraquecendo a arrecadação do país.

Reforma trabalhista aprovada por Milei gera tensão social
O cenário de dificuldades econômicas se agrava com a recente aprovação da reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei na Câmara dos Deputados.
O projeto prevê mudanças profundas na legislação, como:
- Ampliação da jornada de trabalho para até 12 horas diárias;
- Redução das indenizações por demissão;
- Ampliação do período de experiência com menos garantias;
- Restrições ao direito de greve;
- Flexibilização da negociação coletiva.
No mesmo dia da votação, centrais sindicais convocaram uma greve geral que paralisou diversos setores da economia, inclusive a indústria automotiva. Fábricas das montadoras Ford, Volkswagen, Toyota, Stellantis, Mercedes-Benz e Renault foram impactadas. O Brasil importa cerca de 200 mil veículos da Argentina por ano, o que demonstra como a instabilidade no país vizinho também pode gerar reflexos econômicos na indústria brasileira.

Migração cresce diante da falta de perspectivas
Outro ponto observado por Marcelo durante a visita foi o aumento da migração de argentinos para países vizinhos, especialmente o Brasil. A busca por estabilidade econômica, emprego e melhores condições de vida tem levado muitas famílias a deixarem o país.
Para o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre, a situação argentina serve como alerta. “Quando políticas econômicas fragilizam o setor produtivo e retiram direitos dos trabalhadores, os impactos são profundos e atingem toda a sociedade”, avaliou.
A visita reforça a importância da integração entre trabalhadores da América Latina e do fortalecimento de políticas públicas que garantam desenvolvimento produtivo, proteção social e estabilidade econômica.