Comunicação empresarial e notícias falsas se combate com comunicação popular

por Leonardo Koury Martins – em Brasil de Fato/MG

A comunicação enquanto ato, exercício e prática social se compreende a partir da relação cotidiana do trabalho. A comunicação não é apenas um meio. É parte da intervenção das trabalhadoras e trabalhadores na sociedade. A comunicação determina a imagem social e política das pessoas, organizações e coletivos. São parte das lutas presentes na sociedade.

Nos últimos anos, a comunicação no capitalismo tem ampliado suas dimensões de coerção e controle e, por isso, tem se tornado nítida a escalada das notícias falsas e a desinformação no Brasil e no mundo. A tecnologia móvel e a ampliação do uso das redes sociais digitais atravessam o cotidiano da população. Por intermédio das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a vida tem sido reconfigurada em novas bases de sociabilidade capitalista.

O que antes era determinado, majoritariamente, por meio das rádios, jornais, revistas e da televisão, hoje acontece via internet.

É nesta perspectiva que programas de doutrinação religiosa ganham espaços nas redes públicas, como a Rede Minas. E a publicidade pública a cada dia tem se tornado propagandas pessoais.

A ampliação das notícias falsas fortalece os interesses burgueses por meio do ataque às conquistas democráticas e aos direitos da população. Também pelo aumento da perseguição aos profissionais da comunicação e do descrédito a comunicação pública, que sofrem pelo sucateamento, aparelhamento e tentativas de privatização.

Num contexto de multiplataformas, as pessoas e organizações que alimentam a desinformação, principalmente da extrema direita, se utilizam, muitas vezes, do chamado “conteúdo efêmero”. Um conteúdo falso divulgado em uma mídia social e, para burlar a vedação desta veiculação, ele é retirado em pouco tempo, porém já se difundiu em outras redes.

Por outro lado, não se comunica a resistência dos movimentos que denunciam a apropriação da riqueza socialmente construída.

O modelo empresarial de comunicação é o formato hegemônico de construção da informação em grande escala no Brasil. A capacidade de comunicar em grande escala, chegando a milhões de pessoas em pouco tempo, é de grande interesse para o capital.

No Brasil, para além do interesse privado, a comunicação está nas mãos de pequenos grupos, muitos dos quais familiares. Famílias proprietárias de empresas que se alinham aos interesses das big techs internacionais, cujo propósito é o domínio privado do ato de comunicar em massa.

As big techs comercializam os dados de acesso da população: suas preferências, localização e escolhas. A comunicação que fazem busca justificar a barbárie como algo natural.

Um exemplo é a comunicação que fazem sobre chacinas em favelas e no campo, que, invariavelmente, relativiza a ética e culpabiliza a população negra e pobre por suas precárias condições de vida. Violentando a concepção de direitos humanos.

Comunicação popular

Direcionar esforços para superar o modelo de mercado das empresas de comunicação do Brasil e formar uma ampla rede de comunicação pública é o caminho para contrapor a audiência das ideias reacionárias que tem causado efeitos catastróficos na vida da população brasileira.

Um exemplo concreto foi o Plebiscito Popular em Defesa das Estatais de Minas Gerais, que a partir de uma estratégia comunicativa, dialogou com milhares de pessoas, formando formadores, construindo comitês populares e articulando entidades representativas. Mais de trezentas mil pessoas votaram contra a tentativa do governo Zema de privatizar o patrimônio público.

Sem essa articulação que comunicou em grande escala, centenas de cidades não teriam o debate sobre a venda da Copasa, Cemig, Codemge e Gasmig. A mídia empresarial silenciou sobre a iniciativa, mas os movimentos sociais trouxeram à tona uma das mais importantes pautas na luta pela soberania no Estado.

Construir uma comunicação popular é fundamental para a sobrevivência da classe trabalhadora frente ao aumento das violências no atual estágio capitalista. Trazer a partir dos formatos comunicativos de massa, valorizar os jornais populares, as redes das militâncias digitais e integrar estas táticas a estratégias de democratização da comunicação no Brasil para superar uma comunicação que desinforma e mente sobre a realidade social.

Nunca foi fácil para a classe trabalhadora, mas comunicação é ação política e identidade, é o que nos caracteriza. Porque nós da classe trabalhadora precisamos de meios de comunicação coerentes com nosso projeto, nossos valores e nossa práxis.

(*)Leonardo Koury Martins é assistente social, doutorando em Serviço Social pela UFJF e integra a coordenação do Fórum Nacional de Trabalhadoras e Trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social (FNTSUAS).

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Sindicato.

Compartilhar

Veja também

Presidente da Câmara promete pautar fim do fator em agosto

Trabalhadores da Taurus realizam assembleia no pátio da empresa

STJ diz que trabalhador pode pedir desaposentadoria sem devolver valores