Mobilização convocada pela CUT-RS acontece nesta terça-feira (3), às 17h30, na Esquina Democrática. Manifestação questiona os impactos da política monetária sobre o desenvolvimento nacional, o emprego, o crédito e a renda da população
O preço das compras no cartão de crédito, as parcelas de um financiamento, os juros de um empréstimo e até as condições para uma pequena empresa investir e contratar trabalhadores têm relação direta com as decisões sobre a política monetária brasileira. É por isso que a taxa de juros e o papel do Banco Central precisam ser debatidos por toda a sociedade, e não apenas pelo mercado financeiro.
Com essa pauta, a Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT-RS) convoca a população para o ato “Juros Baixos Já! Fim da Autonomia do Banco Central!”, que acontece nesta terça-feira, 3 de novembro, às 17h30, na Esquina Democrática, em Porto Alegre.
A mobilização defende a redução dos juros, a soberania nacional e uma política econômica comprometida com a geração de empregos, a distribuição de renda e o desenvolvimento do país.
Mas afinal, o que é o Banco Central?
Para compreender a importância dessa discussão, é necessário olhar para a história da economia brasileira e para a reorganização do sistema financeiro internacional no século XX.
A Grande Depressão de 1929 provocou uma crise econômica mundial, com consequências profundas para o Brasil. A queda das exportações de café e as dificuldades do comércio internacional contribuíram para acelerar mudanças na economia nacional, entre elas o processo de industrialização e a ampliação da participação do Estado no planejamento econômico.
Nos Estados Unidos, o presidente Franklin D. Roosevelt implementou, a partir de 1933, o New Deal, um conjunto de medidas de intervenção estatal, recuperação econômica e proteção social para enfrentar os efeitos da crise. No Brasil, esta tarefa de recuperar a economia ficou a cargo de Getúlio Vargas, que investiu na industrialização do país como uma das soluções.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a necessidade de reorganizar a economia internacional levou à Conferência de Bretton Woods, realizada em 1944, nos Estados Unidos. O encontro estabeleceu a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, que posteriormente integraria o Banco Mundial. A orientação é que cada país passasse a pensar como regularia o mercado financeiro.
No Brasil, a estruturação de uma autoridade monetária própria ocorreu em etapas. Em 1945, foi criada a Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), vinculada ao Ministério da Fazenda e responsável por preparar a organização de um Banco Central. A instituição desempenhou funções importantes na condução das políticas monetária, cambial e de crédito.
O Banco Central do Brasil foi efetivamente criado em 31 de dezembro de 1964, pela Lei nº 4.595, no contexto da reforma do sistema financeiro nacional durante a ditadura militar.
Conhecido como o banco dos bancos, o Banco Central tem entre suas atribuições regular e fiscalizar o sistema financeiro, controlar a circulação de dinheiro e conduzir a política monetária. Uma de suas decisões mais importantes é a definição da taxa básica de juros da economia, a Selic.
Mas quem decide os rumos da economia?
Uma das principais críticas levantadas pela mobilização é a autonomia do Banco Central, estabelecida pela Lei Complementar nº 179, de fevereiro de 2021.
Antes da mudança, o presidente da República tinha maior liberdade para substituir o presidente do Banco Central. Com a nova legislação, o comando da instituição passou a ter mandatos fixos de quatro anos, que não coincidem necessariamente com o mandato presidencial.
O presidente do Banco Central continua sendo indicado pelo presidente da República e precisa ter seu nome aprovado pelo Senado Federal. Entretanto, com a autonomia, o governo eleito não pode simplesmente substituir a direção da instituição por decisão política durante seu mandato.
Para os críticos desse modelo, a mudança reduz a capacidade de intervenção do governo eleito sobre uma das áreas mais importantes da política econômica nacional. A discussão envolve justamente o peso das decisões de uma instituição com enorme influência sobre o crédito, os investimentos, o consumo e o desenvolvimento do país.
Quais interesses devem orientar a política monetária brasileira? Os interesses do mercado financeiro ou as necessidades da população e do desenvolvimento nacional?
Mas quem paga essa conta?
O Brasil voltou a ocupar a primeira posição no ranking mundial de juros reais em setembro de 2026. Os juros elevados têm consequências que ultrapassam o mercado financeiro. Eles encarecem empréstimos e financiamentos, dificultam o acesso ao crédito, aumentam o custo de investimento das empresas e podem frear a atividade econômica.
Na vida cotidiana, isso significa famílias pagando mais caro para parcelar uma compra, trabalhadores encontrando dificuldades para renegociar dívidas e pequenos empreendedores enfrentando obstáculos para ampliar seus negócios e gerar empregos.
Trabalhadores na rua na luta pela redução da taxa de juros
Em 2023, os trabalhadores ocuparam as ruas do Brasil pedindo que Campos Neto, então presidente do Banco Central fosse deposto devido a alta das taxas de juros. Agora, novamente convocado pelas centrais sindicais brasileiras, o ato desta terça-feira, dia 3 de novembro busca transformar o debate sobre a política monetária em uma reivindicação popular. A mobilização acontece a partir das 17h30 na Esquina Democrática, em Porto Alegre.
A defesa de juros mais baixos e o questionamento da autonomia do Banco Central fazem parte de uma discussão mais ampla sobre democracia, participação popular e os rumos do desenvolvimento brasileiro.
Por isso chegou a hora de ocuparmos as ruas para dizer que queremos ter mais qualidade de vida, com mais poder de compra e isso passa necessariamente pelo fim da autonomia do Banco Central e pela redução da taxa de juros.